Sambalelê e outras cantigas
No último post, minha amiga Priscila citou uma música, uma cantiga de roda bem popular na infância das meninas dos anos 70-80, a música da Piranha. Comecei a lembrar de minha avó me ensinando a dançar a música da Piranha. Sim, além de cantar as cantigas de rodas, nós também dançávamos e dávamos asas a imaginação.
Na música da Piranha, a protagonista terminava sendo mandada pro olho da rua.
“Piranha foi à missa, piranha, a saia dela caiu. Estava do lado dela piranha, ela não me viu. Chora, chora, chora piranha, torna a chorar. Diga adeus pro povo piranha, pega na mão da moça piranha e vá pro olho da rua”.
Lógico, o que se faz com a Piranha? Vai pro olho da rua. E eu imaginava alguém sendo expulsa da igreja, escurraçada pelo padre, na sarjeta, por isso ela chorava tanto. Tudo por que a saia dela caiu. Minha vontade era de falar para o padre: seu padre não foi de próposito, a saia dela caiu sem ela querer…
Relembrando de como eu via a vida da Piranha na minha infância, recordei de outras cantigas que podem ser consideradas politicamente incorretas. Acho que na época de minha “meninice” não existia esse termo “politicamente in/correto”.
Uma das cantigas que relembrei e tal qual a música da Piranha, fazia-me experimentar o sentimento da injustiça foi a do Sambalelê, esta sim despertava-me fúria:
“Sambalê lê tá doente, tá com a cabeça quebrada. Sambalê lê precisava é de umas boas palmadas. Samba, samba, samba ô lê, lê, samba, samba, samba ô lá, lá”.
Ou seja, o Sambalelê (menino muito levado) estava doente, com a cabeça quebrada e ainda precisava apanhar! Como alguém tinha coragem disso? Na época eu não assistia jornais, não sabia da existência de Nardonis. Mas, apesar de achar a música injusta eu a usei em um momento dramático. O meu primo praticamente quebrou a cabeça ao brincar de túnel (passar por debaixo das pernas da mulecada). Ele caiu, teve um coágulo na cabeça e teve que ser operado imediatamente. Depois de ter a cabeça cortada de fora a fora, passado uma semana na UTI, eu cantei essa música quando ele chegou em casa! Sem dúvida, Sambalelê marcou minha infância.
Agora uma cantiga que me deixava muito triste era a do Cravo e a Rosa. Meus olhos chegavam a lacrimejar. Minha avó é que gostava de cantá-la, lembro-me de implorar “não canta vó”:
“O cravo brigou com a rosa , debaixo de uma sacada. O cravo saiu ferido, a rosa, despetalada. O cravo ficou doente, a rosa foi visitar. O cravo teve um desmaio, a rosa pôs-se a chorar”.
E na minha imaginação o cenário perfeito para essa encenação era a casa do meu vizinho que tinha uma sacada gigante, o cravo que minha vó tinha em um vasinho em cima da mesa de jantar e a rosa amarela da roseira que essa mesma avó cultivava no jardim. O cravo pulava da mesa, chamava a rosa para conversar debaixo da sacada do seu Zequinha e rolava o maior barraco, que terminava com a Rosa chorando na beira da cama da minha vó, porque logicamente o cravo após ter sofrido um desmaio foi levado para os aposentos da pessoa que mais marcou minha infância, minha avó materna! Muito triste!
Já a cantiga da Criola que veio da Bahia não gerou imaginação, só o apelido ao amiguinho do meu irmão que sempre era a vovó. Quando o via já soltava: a benção vovó?! Reparem na conotação racial da música :
“Samba Criola, que veio da Bahia, pega essa criança e joga na bacia !A bacia é de ouro, ariada com sabão, depois de ariada, enxuga com roupão! O roupão é de seda, camisinha de filó, roupinha de veludo, prá dar benção à vovó. À benção, vovó! À benção, vovó!”
E quando terminava de ser cantada era escolhido alguém da roda pra ser a vovó, a qual era cercada por crianças ávidas para apertar-lhe as mãos pedindo a benção.
Eu imagino que essa cantiga é da época da escravidão, a criola era a mãe da Escrava Isaura e a criança que tomou banho na bacia de ouro e vestiu roupa de veludo era o senhôzinho Leôncio.
E pra terminar as cantigas de minha infância deixei por último a mais traumática, Domingo. Eu odiava o domingo, pois depois de almoçar macarronada, tomar mirinda, meus primos iam embora e eu tinha que fazer a tarefa escolar, ver um poquinho do fantástico e dormir. O dia era curto e ainda tinha essa canção para atormentar:
“Hoje é domingo,pé de cachimbo. O cachimbo é de ouro, bate no touro. O touro é valente, bate na gente. A gente é fraco e cai no buraco. O buraco é fundo, acabou-se o mundo!”
Sim, eu achava que a probabilidade de cair num buraco no domingo eram maiores.
As clássicas do politicamente/pedagogicamente incorreto como “atirei o pau no gato”, “ciranda cirandinha”, nem citei porque todo mundo já refletiu sobre ela.
E deve ser por isso que hoje as crianças não brincam mais de roda com essas cantigas. Mas, se depender de mim essa tradição não morre, ensinarei as musiquinhas a todas as crianças que atravessarem o meu caminho!

