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Sambalelê e outras cantigas

Postado por Fabíola Ariadne em 28 de maio de 2009 na categoria Sem categoria

cantigaderoda1No último post, minha amiga Priscila citou uma música, uma cantiga de roda bem popular na infância das meninas dos anos 70-80, a música da Piranha. Comecei a lembrar de minha avó me ensinando a dançar a música da Piranha. Sim, além de cantar as cantigas de rodas, nós também dançávamos e dávamos asas a imaginação.

Na música da Piranha, a protagonista terminava sendo mandada pro olho da rua.

“Piranha foi à missa, piranha, a saia dela caiu. Estava do lado dela piranha, ela não me viu. Chora, chora, chora piranha, torna a chorar. Diga adeus pro povo piranha, pega na mão da moça piranha  e vá pro olho da rua”.

Lógico, o que se faz com a Piranha? Vai pro olho da rua. E eu imaginava alguém sendo expulsa da igreja, escurraçada pelo padre, na sarjeta, por isso ela chorava tanto. Tudo por que a saia dela caiu. Minha vontade era de falar para o padre: seu padre não foi de próposito, a saia dela caiu sem ela querer…

Relembrando de como eu via a vida da Piranha na minha infância, recordei de outras cantigas que podem ser consideradas politicamente incorretas. Acho que na época de minha “meninice” não existia esse termo “politicamente in/correto”.

Uma das cantigas que relembrei e tal qual a música da Piranha, fazia-me experimentar o sentimento da injustiça foi a do Sambalelê, esta sim despertava-me fúria:

“Sambalê lê tá doente, tá com a cabeça quebrada. Sambalê lê precisava é de umas boas palmadas. Samba, samba, samba ô lê, lê, samba, samba, samba ô lá, lá”.

Ou seja, o Sambalelê (menino muito levado) estava doente, com a cabeça quebrada e ainda precisava apanhar! Como alguém tinha coragem disso? Na época eu não assistia jornais, não sabia da existência de Nardonis. Mas, apesar de achar a música injusta eu a usei em um momento dramático. O meu primo praticamente quebrou a cabeça ao brincar de túnel (passar por debaixo das pernas da mulecada). Ele caiu, teve um coágulo na cabeça e teve que ser operado imediatamente. Depois de ter a cabeça cortada de fora a fora, passado uma semana na UTI, eu cantei essa música quando ele chegou em casa! Sem dúvida, Sambalelê marcou minha infância.

Agora uma cantiga que me deixava muito triste era a do Cravo e a Rosa. Meus olhos chegavam a lacrimejar. Minha avó é que gostava de cantá-la, lembro-me de implorar “não canta vó”:

“O cravo brigou com a rosa , debaixo de uma sacada. O cravo saiu ferido, a rosa, despetalada. O cravo ficou doente, a rosa foi visitar. O cravo teve um desmaio, a rosa pôs-se a chorar”.

E na minha imaginação o cenário perfeito para essa encenação era a casa do meu vizinho que tinha uma sacada gigante, o cravo que minha vó tinha em um vasinho em cima da mesa de jantar e a rosa amarela da roseira que essa mesma avó cultivava no jardim. O cravo pulava da mesa, chamava a rosa para conversar debaixo da sacada do seu Zequinha e rolava o maior barraco, que terminava com a Rosa chorando na beira da cama da minha vó, porque logicamente o cravo após ter sofrido um desmaio foi levado para os aposentos da pessoa que mais marcou minha infância, minha avó materna! Muito triste!

Já a cantiga da Criola que veio da Bahia não gerou imaginação, só o apelido ao amiguinho do meu irmão que sempre era a vovó. Quando o via já soltava: a benção vovó?! Reparem na conotação racial da música :

“Samba Criola, que veio da Bahia, pega essa criança e joga na bacia !A bacia é de ouro, ariada com sabão, depois de ariada, enxuga com roupão! O roupão é de seda, camisinha de filó, roupinha de veludo, prá dar benção à vovó. À benção, vovó! À benção, vovó!”

E quando terminava de ser cantada era escolhido alguém da roda pra ser a vovó, a qual era cercada por crianças ávidas para apertar-lhe as mãos pedindo a benção.

Eu imagino que essa cantiga é da época da escravidão, a criola era a mãe da Escrava Isaura e a criança que tomou banho na bacia de ouro e vestiu roupa de veludo era o senhôzinho Leôncio.

E pra terminar as cantigas de minha infância deixei por último a mais traumática, Domingo. Eu odiava o domingo, pois depois de almoçar macarronada, tomar mirinda, meus primos iam embora e eu tinha que fazer a tarefa escolar, ver um poquinho do fantástico e dormir. O dia era curto e ainda tinha essa canção para atormentar:

“Hoje é domingo,pé de cachimbo. O cachimbo é de ouro, bate no touro. O touro é valente, bate na gente. A gente é fraco e cai no buraco. O buraco é fundo, acabou-se o mundo!”

Sim, eu achava que a probabilidade de cair num buraco no domingo eram maiores.

As clássicas do politicamente/pedagogicamente incorreto como “atirei o pau no gato”, “ciranda cirandinha”, nem citei porque todo mundo já refletiu sobre ela.

E deve ser por isso que hoje as crianças não brincam mais de roda com essas cantigas. Mas, se depender de mim essa tradição não morre, ensinarei as musiquinhas a todas as crianças que atravessarem o meu caminho! :D

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