Não vou discutir agora os motivos de terem trocado meu sexo durante o nascimento, mas um dos grandes indícios de que isso aconteceu é o fato de eu não conseguir assumir meu papel de dama durante as danças. Eu sempre conduzo os rapazes. Por mais que eu tenha boa vontade e queira me deixar conduzir, não consigo, quando vejo, já estou arrastando o pobre coitado pra lá e pra cá, desempenhando papel de macho alfa.
Olhando por esse lado, vejo uma vantagem em ter envelhecido, pois quando criança exercitava meu lado masculino cuspindo no meu salgado na hora do recreio só pra não ter que dividi-lo com ninguém, mas o pior mesmo era lutar com os meninos quando algum imbecil me chamava de bocão da royal. Nesse ponto Deus foi mais generoso com as mulheres: os meninos já nascem com saco escrotal, enquanto nossos seios demoram uns 12 anos pra crescer, com os meus foram assim. Era só acertar um chute em cheio que meus adversários caiam quase que em coma. Uma vez até fiz um menino chamado Leonardo ficar roxo e sem ar. Na adolescência não brigava, mas fiz um gol nos jogos da escola. Hoje, sou quase uma menina. Uso vestidos, acessórios com laços e jóias em formato de coração.
Há duas semanas me matriculei na aula de dança de salão. O motivo? Não sei dizer não para meus amigos. Não é no caso dos rapazes, pois se o bofe for estranho, o que implica usar sapatos pé de ferro, calça boca de espingarda e dar aquelas risadinhas descontroladas, digo: muito obrigada, mas estou com flatulências, portanto, não posso dançar. Não há um que insista. Só os que não conhecem o significado da palavra flatulência. Também há os dias em que estou de tremendo mal humor, aí já digo logo um não na cara, mas existem alguns que insistem em perguntar: por que você não quer dançar? Com muita serenidade digo que não vou dançar porque ele é feio. Nesse ponto também sou como os homens, não tenho piedade.
No sábado passado descobri que os homens têm mais dificuldade em dançar que as mulheres. Sim, aprendi que quando o homem domina as técnicas da dança, ele é capaz de conduzir qualquer mulher, inclusive uma que nem saiba pular ao som das canções de Ivete Sangalo. A posição do braço, o senso de direção e as coordenadas são todas ações que os rapazes devem dominar quando convidam as moçoilas para bailar.
Portanto, a partir de hoje, nas aulas de dança me deixarei conduzir. Vou até sair para dançar qualquer dia desse. Ah, e quanto aos chutes naquele lugar, que vocês, rapazes, insistem em chamar de ovos , parei!